Campo Grande - MS, quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Metáfora

QUATRO MESES

Outro dia foi o aniversário da partida de uma senhora por muitos conhecida e muito querida.

Algum tempo antes, chegando de uma das dezenas de consultas médicas que já fizera, ela disse aos familiares:

-         Pedi franqueza à junta médica que me examinou, pedi-lhes que não me poupassem de saber a verdade sobre meu estado de saúde.

-         Eu sinto que me resta pouco tempo.

 

Diante dos olhares ansiosos, ela continuou:

-Eles me revelaram que sou portadora de uma moléstia incurável e que minha previsão de vida é de aproximadamente 4 meses.

 -" E a senhora nos conta isso com essa naturalidade ? ", perguntou uma das filhas, em prantos.

Continuou a senhora, com muita serenidade:

- Ora, eu tenho um bom tempo para fazer tudo que já devia ter feito há muito.

 

Arrumarei todos os meus armários, guardarei o que realmente uso e o resto jogarei fora ou doarei a quem precisa.

Colocarei belas cortinas em todas as janelas e elas me impedirão de ficar olhando a vida alheia.

Todos os dias tirarei o pó da casa e durante esse trabalho pensarei:

" Estou me livrando das sujeiras que guardei do passado "

Evitarei ouvir e assistir más notícias e alimentarei o meu espírito com leituras saudáveis, conversas amigáveis, dispensarei fofocas e não criticarei a mais ninguém.

 

Pensarei naqueles que já me magoaram e, com sinceridade, os perdoarei.

Todas as noites agradecerei a Deus por tudo que estarei conseguindo fazer nestes últimos 4 meses que me restam.

Todas as manhãs, ao acordar, perguntarei a mim mesma:

" O que posso fazer para tornar o dia de hoje um dia melhor? “

E farei de tudo para transmitir felicidade àqueles que de mim se aproximarem.

E a cada dia que passar farei pelo menos uma boa ação.

Quatro meses são mais de 120 dias, portanto, quando eu fechar os olhospara nunca mais abri-los, eu terei feito no mínimo 120 boas ações.

Todos que a ouviam, pouco a pouco se retiraram dali, indo cada um para um canto, para chorar sozinho.

 

A mulher ali ficou e nos seus olhos havia um brilho de alegria.

Pensava consigo mesma: " não posso curar meu corpo, mas posso mudar a vida que me resta "

Ela tinha uma grande tarefa: transformar seu mundo interior, tornar-se uma pessoa totalmente diferente do que já fôra - em apenas 4 meses - e conseguiu cumpri-la plenamente.

 

Outro dia foi o aniversário da partida dessa senhora.

O mais curioso dessa história é que, após a notícia dada aos familiares, ela viveu mais 23 anos.

Ela curou a sua própria alma e sua moléstia desapareceu :

Ela morreu de velhice.

Silvia Schmidt

No livro Sorte é Prá Quem Quer

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